O Prof. Doutor José Luís Medina define ainda o relacionamento entre as duas entidades congéneres, como uma “consequência das características e objetivos das duas entidades tendo em vista estimular e apoiar a investigação clínica e a investigação fundamental na área da diabetes com a finalidade de prevenir ou atrasar a doença e as suas complicações”.
E em comentário à projeção da Diabetologia nacional, o presidente da SPD evidencia que, pela terceira vez, Portugal foi escolhido para receber, em 2017, o Congresso Anual da EASD, na cidade de Lisboa.
News Farma (NF) | Como se tem desenvolvido a relação entre a European Association for the Study of Diabetes (EASD) e a Sociedade Portuguesa de Diabetologia (SPD)? E quais as possibilidades para os especialistas nacionais que queiram fazer parte desta entidade europeia?
Prof. Doutor José Luís Medina (JLM) | Em primeiro lugar gostaria de dizer que os objetivos da EASD são estimular e apoiar a investigação no domínio da diabetes, difundir o conhecimento adquirido e facilitar a sua aplicação na prática. A EASD foi fundada em reunião geral, em Montecatini em 1965, tendo como primeiro presidente o professor Joseph Hoet.
A Sociedade Portuguesa de Diabetologia (SPD) acompanhou, desde sempre, todas as atividades da EASD. Seguiu todas as suas recomendações ou guidelines e adaptou, algumas vezes, as normas da EASD à realidade portuguesa.
A ligação da SPD à EASD é uma ligação individual de cada membro, que voluntariamente se queira inscrever como membro de pleno direito. A EASD engloba não só médicos, mas também cientistas, enfermeiras e estudantes ou profissionais de saúde interessados na diabetes e em temas relacionados com esta doença. Os membros terão que pagar uma quota anual e têm direito a voto na Assembleia Geral e são elegíveis para o Conselho e para o comité executivo.
Os membros podem inscrever-se no Congresso anual com razoáveis descontos. Os membros têm direito a receber a revista Diabetologia que publica artigos sobre diabetes, não só no domínio clínico, mas também experimental e sobre metabolismo. Esta revista publica os resumos das comunicações e posters apresentados no congresso anual. Os membros ativos da EASD ultrapassam em número os 7.000 indivíduos, pertencentes a mais de 100 países. O primeiro membro honorário da EASD foi Charles Best.
A relação entre SPD e EASD é consequência das características e objetivos das duas entidades tendo em vista estimular e apoiar a investigação clínica e a investigação fundamental na área da diabetes com a finalidade de prevenir ou atrasar a doença e as suas complicações.
NF | Existem projetos em comum ou protocolos de cooperação futura entre as duas sociedades?
JLM | Não há protocolos de cooperação entre as duas entidades, mas a SPD encoraja os seus membros a apresentar trabalhos de investigação no Congresso Anual da EASD pelo grau de exigência científica na aceitação destes trabalhos e da projeção internacional a que são votados. Em cooperação com a Lilly, desde há dois anos são instituídas seis bolsas (três para investigadores em investigação fundamental e três em investigação clínica) que visam pagar viagem e estadia a quem apresentar trabalhos e que sejam aceites no Congresso Anual.
A SPD segue o exemplo da EASD criando Grupos de Estudo mais especializados, estimulando a investigação e oferecendo uma bolsa de 10.000 euros/ ano para investigação.
NF | É de notar a presença de especialistas portugueses na apresentação de trabalhos científicos. Como avalia esta crescente participação?
JLM | Verifica-se todos os anos um aumento gradual do número de trabalhos aceites para apresentação no Congresso Anual da EASD. Há trabalhos apresentados em posters e em comunicações orais com origem nas diferentes universidades e hospitais do país e, também, da Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal.
A SPD tem patrocinado também alguns destes trabalhos, com algum financiamento pecuniário os quais são apresentados por investigadores pertencentes ao GIFT (Grupo de Estudos de Investigação Fundamental e Translacional, da SPD) coordenado pela Prof.ª Doutora Paula Macedo, da Universidade Nova de Lisboa.
NF | O interesse dos médicos portugueses mais jovens é uma realidade neste Congresso?
JLM | Como é de esperar, a maior parte dos investigadores é jovem. Beneficiam de estruturas, muitas vezes montadas pelos mais velhos, a que associam o entusiasmo da sua juventude pela investigação. Uma palavra de apreço pela FCT que tem apoiado a investigação e por institutos e serviços que, com dificuldades, vão fazendo investigação ao mais alto nível.
NF | E que tópicos espera ver tratados no EASD 2015 tendo em conta o impacto da diabetes e das complicações associadas?
JLM | Serão muitos e variados os temas que podem ser apresentados no Congresso europeu, nomeadamente: estilos de vida recomendados, educação, diabetes gestacional, novos dados sobre o papel do glucagon, hipoglicemias e consequências, novos fármacos e dispositivos, inflamação e diabetes, fígado e diabetes, recuperação da célula beta. Haverá também resultados de estudos e ensaios, novos dados sobre genética, diabetes tipo 2 no idoso, insulinorresistência, associações de medicações, lípidos e nefropatia, terapêuticas baseadas nas incretinas, pé diabético, obesidade. Assim como, o futuro do tratamento da diabetes, quanto custa a diabetes ao país, a prevenção, como atuar nos fatores de risco cardiovasculares, entre outros.
NF | Este ano, a bolsa promovida pela SPD para a participação no EASD 2015 resultou em quatro premiados. Que inovações apresentaram os projetos vencedores?
JLM | Os premiados foram, de facto, seis projetos porque a direção da SPD decidiu atribuir mais três bolsas a outros trabalhos. Nomeio aqui os vencedores da Bolsa SPD/Lilly para participação no Congresso da EASD 2015: "Immune subsets profile through disease onset, remission phase and final establishment in type 1 diabetic children", da Prof.ª Doutora Catarina Limbert; "FINDRISC score and glycaemic measures better than HbA1C, as predictor and monitor of dibetes incidence within 5 years", do Prof. Doutor Rogério Ribeiro; "Metabolic reprogramming in male offspring in a non-dietary model of liver insulin resistance", do Dr. Dário de Jesus e o projeto"GLP-1 analogue has anti-inflammatory effects at the spinal cord of diabetic rats", da Prof.ª Doutora Carla Morgado.
Ainda, a título excecional, a SPD concedeu um apoio (no valor de 1.500,00 euros) a cada um dos seguintes sócios - Dr.ª Margarida Correia, Dr.ª Inês de Sousa Lima e da Dr.ª Madalena Martins - com trabalhos aceites para apresentação no Congresso EASD de 2015.
NF | Segundo o último relatório do Observatório da Diabetes, metade da população portuguesa tem ou está em risco de vir a ter diabetes. Qual o papel do EASD 2015 para combater esta tendência?
JLM | A EASD contempla a prevenção da diabetes nos seus objetivos mas não desenvolve nenhum projeto de prevenção no terreno. Em Portugal, foi apresentado o projeto Desafio Gulbenkian” Não à Diabetes “, no dia 7 deste mês. Este projeto envolve a Fundação Calouste Gulbenkian, a DGS, o Programa Nacional da Diabetes e a APDP. A SPD é um parceiro neste projeto tendo a seu cargo o apoio científico e a divulgação do mesmo.
NF | Portugal vai receber o Congresso magno da EASD em 2017. O que representa a realização do congresso europeu no nosso país? O que se espera desenvolver?
JLM | A atribuição da responsabilidade da organização, pela terceira vez, do Congresso Europeu da Diabetes (1989, 2011 e 2017) foi mais uma vez uma honra para Portugal, para a APDP e para os profissionais portugueses que se dedicam à diabetes.
Portugal esteve representado várias vezes em órgãos diretivos da EASD (Dr. Nunes Correia, Dr. Gardete-Correia e Dr. José Manuel Boavida). O Dr. Gardete-Correia foi chairman do Congresso de 2011 e vai ser também do Congresso de 2017 e o Dr. Nunes Correia foi chairman do Congresso de 1989.
Será, novamente, uma forma de chamar a atenção para o problema grave que a diabetes representa e será mais um estímulo enorme para a investigação e para os investigadores e diabetologistas portugueses, sobretudo os mais jovens. O contacto com diabetologistas e cientistas de grande reconhecimento mundial será também uma mais-valia para os profissionais de saúde que se dedicam à diabetes.


